Rio de Janeiro terá primeira Lei de Responsabilidade Fiscal estadual

O governo do Rio prepara o envio à Assembleia Legislativa (Alerj) da primeira Lei de Responsabilidade Fiscal estadual. O projeto de lei complementar, apresentado nesta segunda-feira (dia 24 pelo secretário estadual de Fazenda, Guilherme Mercês, durante o evento da Fundação Getulio Vargas, em Botafogo, cria um novo arcabouço fiscal com regras permanentes para controlar gastos, reduzir déficits e evitar que receitas extraordinárias sejam utilizadas para pagar despesas permanentes, como salários, aposentadorias e o custeio da máquina pública.

Atualmente, o estado segue apenas as diretrizes da Lei de Responsabilidade Fiscal federal e não possui uma legislação própria sobre o tema. Segundo Mercês, a proposta busca dar estabilidade às contas públicas independentemente do governo que estiver no poder.

— A lei vem justamente dar uma estabilidade financeira para o Estado do Rio de Janeiro. Ela cria regras intertemporais e até intergeracionais, para que isso não fique ao sabor de receitas extraordinárias ou de gestores que queiram gastar ou se endividar mais — afirmou o secretário.

Um dos principais pontos do texto é impedir que recursos temporários, como royalties do petróleo em períodos de alta ou dinheiro obtido com a venda de ativos públicos, sejam usados para bancar gastos que se repetem todos os anos.

— Ela (a lei) impediria principalmente que a gente usasse recursos que são do tipo uma vez e nunca mais para pagar despesas que são para sempre — disse Mercês.

A proposta também prevê que a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) passe a incluir um relatório sobre a transição energética, preparando o estado para reduzir gradualmente sua dependência das receitas do petróleo.

Amarra para o próximo governo

 

A discussão sobre a proposta também ganhou um componente político. Uma das preocupações levantadas durante o seminário foi se a nova legislação poderia criar uma espécie de “amarra” para o próximo governador, que assumirá o estado em 2027.

Mercês afirmou que o projeto não é direcionado a nenhum candidato e que a intenção é estabelecer regras que atravessem governos. Segundo ele, haverá um período de transição antes da aplicação integral das novas normas, justamente para permitir a adaptação das contas públicas.

Segundo o secretário, uma vez aprovada, a mudança só poderia ser revertida por uma nova alteração na própria lei complementar, o que criaria um custo político para um eventual recuo das regras fiscais.

— Você cria regras que só poderiam não ser cumpridas caso essa lei complementar fosse alterada novamente, com o devido custo político que isso teria. A ideia é justamente criar regramentos, balizas, para que os governantes preservem a sustentabilidade das contas públicas — disse.

Déficit e ICMS

Durante a apresentação, Mercês lembrou que a previsão inicial para 2026 apontava um déficit de R$ 19 bilhões, mas afirmou que a meta do governo é encerrar o ano com resultado positivo entre R$ 1 bilhão e R$ 5 bilhões.

— Reverter já seria um grande desafio, mas estamos trabalhando para entregar o Estado com resultado positivo — afirmou.

Segundo o secretário, o principal fator para essa reversão é o crescimento da arrecadação do ICMS, que já aumentou cerca de R$ 6 bilhões — aproximadamente 18% em relação ao mesmo período do ano passado —, além da alta dos royalties e da contenção de despesas.

Combate à sonegação

Questionado sobre empresas de fachada, laranjas e fraudes tributárias ligadas ao crime organizado, Mercês afirmou que a Lei de Responsabilidade Fiscal não trata desse tema. Segundo ele, o assunto será disciplinado pelo projeto do devedor contumaz, que já tramita na Alerj, além da proposta de transação tributária.

— A Lei de Responsabilidade Fiscal não trata de grandes sonegadores. Quem vai tratar dos grandes sonegadores é justamente a lei do devedor contumaz — afirmou.

O secretário disse que o combate à sonegação e às fraudes estruturadas precisa envolver diferentes órgãos. Citou parcerias com o Ministério Público, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Postos de combustíveis na mira

Durante o seminário, o secretário também apresentou dados sobre a fiscalização de postos de combustíveis. Segundo ele, cerca de 2 mil dos aproximadamente 2,3 mil estabelecimentos do estado foram notificados por irregularidades. A maior parte dos problemas está relacionada à falta de registro das entradas de insumos e das saídas de combustíveis, o que dificulta o controle tributário e financeiro.

O governo acredita que a Lei de Responsabilidade Fiscal e os projetos voltados aos grandes devedores podem ser aprovados ainda este ano. Mercês afirmou que o texto da LRF estadual passará por ajustes após as contribuições recebidas no seminário e deve ser encaminhado pelo governador à Alerj nas próximas semanas.

— A gente acredita que sim. São pautas muito positivas para o Estado do Rio de Janeiro — afirmou.

A proposta, segundo o secretário, não prevê mudanças imediatas. O período de transição deverá permitir que o próximo governo se adapte gradualmente às novas regras fiscais.

Related posts

Governo do Estado ampliará sistema prisional fluminense

Auditoria aponta que só cinco de 209 bolsistas atuavam em pesquisas da Pesagro-Rio

PGE-RJ recupera R$ 153 milhões para investimentos no Estado