No fato relevante sobre o pedido de recuperação judicial (RJ), a Casas Bahia aponta como razão “um contexto de deterioração das condições econômico-financeiras enfrentadas pela companhia.”
E diz que ela foi impactada, dentre outros fatores, “pelo ambiente macroeconômico desafiador, marcado por patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro aliados à não concretização de alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas pela companhia”.
A Casas Bahia disse que enfrenta um cenário de “liquidez restrita” que levou à medida: “o ajuizamento do pedido de recuperação judicial mostra-se necessário e configura mais um passo na direção da reestruturação financeira da companhia, buscando preservar a continuidade das atividades empresariais, proteger a geração de valor futuro e viabilizar uma solução ordenada para o equacionamento de suas obrigações”.
No resultado do segundo trimestre, a EY, auditoria contrada, se absteve de dar uma conclusão sobre o balanço, citando “incerteza relevante relacionada à continuidade operacional da companhia“.
O essencial: A Casas Bahia tenta encolher para caber no caixa disponível: fechou 298 lojas nesta etapa do plano, corta custos, reduz estoques, negocia prazos com credores e fornecedores. Mas o próprio balanço reconhece que não há garantia de que essas medidas funcionem.
Nas palavras da diretoria (pré-recuperação): “A implementação das iniciativas acima está sujeita a riscos de execução e, em determinados casos, à negociação, concordância ou participação de terceiros, não havendo garantia de que produzirão os resultados esperados nos montantes ou prazos considerados pela Administração.”
“Dentre as medidas avaliadas pela companhia (…)”, segue o documento do balanço, estão medidas de reorganização formal de seus passivos e obrigações, incluindo possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial“. Ou seja, a empresa já alertava para o que se tornou fato.
Sobre o balanço em si: Casas Bahia registrou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre – 18 vezes mais do que os R$ 555 milhões no vermelho que tinham registrado há um ano.
O grosso (R$ 9,1 bilhões) é não-recorrente. Tirando isso, a perda do trimestre teria sido de R$ 978 milhões. Ruim, de qualquer forma.
E os itens não-recorrentes são a parte mais reveladora do balanço. É a empresa revisando para baixo a própria expectativa de futuro.
O maior desses ítens é a baixa de R$ 5,7 bilhões em ‘créditos tributários diferidos‘. Em português: esses créditos são prejuízos passados que a empresa poderia abater de impostos futuros – valem alguma coisa apenas se houver lucro para abater lá na frente.
Quem é o dono da Casas Bahia atualmente?
A gestora Mapa Capital, especializada em reestruturação de dívidas e fusões e aquisições, comprou os créditos que o Bradesco e o Banco do Brasil tinham contra a Casas Bahia e os converteu em ações. Com isso, tornou-se a controladora da companhia, com cerca de 85% do capital.
A família Klein, fundadora da empresa, perdeu a maior parte de sua participação nesse processo. O acionista Michel Klein, neto do fundador Samuel Klein, ficou com cerca de 3,8% do capital.