O mercado brasílio de trigo vive um cenário de contrastes neste início de 2026. Enquanto o volume de importações do cereal encerrou o ano pretérito nos níveis mais altos em mais de uma dezena, o produtor pátrio enfrenta um momento de preços pressionados e liquidez travada. Segundo dados da Secretaria de Negócio Exterior (Secex), analisados pelo Núcleo de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a ingressão de trigo estrangeiro no Brasil em 2025 foi a maior desde 2013, o que redesenhou a dinâmica de negociações para a safra atual.
O fluxo intenso de chegadas nos portos foi impulsionado por uma combinação favorável aos moinhos brasileiros: preços externos atrativos e uma ampla oferta global do grão. Essa janela de oportunidade fez com que as indústrias nacionais antecipassem compras e formassem estoques robustos.
Os números confirmam a tendência de subida. No aglomerado de 2025, o Brasil importou 6,894 milhões de toneladas, um desenvolvimento de 3,7% em conferência ao ano anterior. O destaque ficou para a reta final do ano: somente em dezembro, desembarcaram 698,74 milénio toneladas de trigo no país. Esse foi o segundo maior volume mensal do ano — detrás unicamente de janeiro — e o dezembro mais movimentado para o setor desde 2016.
Indústria abastecida freia negociações
O revérbero direto desse volume massivo de importações é sentido agora, “da porteira para dentro”. Com os armazéns confortavelmente abastecidos pelo resultado importado, as empresas domésticas (moinhos e processadoras) iniciaram 2026 sem urgência de compra.
Essa postura retraída da indústria gera um descompasso entre oferta e demanda no mercado interno. Sem a premência imediata de comprar a matéria-prima pátrio, os compradores impõem pressão sobre os valores. Uma vez que resultado, na última semana, o preço pago diretamente ao produtor registrou queda na maioria das regiões acompanhadas pelos pesquisadores do Cepea.
Para o lavrador, o cenário exige cautela e estratégia na comercialização, já que a “mão” do mercado está, neste momento, favorável ao comprador.
O comportamento no mercado de lotes
Apesar da queda no valor pago ao produtor individual, o mercado de lotes — que envolve negociações de grandes volumes, geralmente entre cooperativas e cerealistas — apresentou um movimento inverso. Com exceção do Paraná, as cotações nesse segmento subiram.
Essa valorização pontual não reflete um aumento de demanda, mas sim uma estratégia de resguardo dos vendedores. Diante dos preços baixos oferecidos pela indústria, quem detém o grão (cooperativas e grandes produtores) optou por recuar e não vender agora.
A expectativa desses vendedores é esperar o progresso do período de entressafra — pausa entre o termo de uma colheita e o início da próxima —, quando a oferta originário do resultado diminui e os preços tendem a reagir. Esse “jogo de paciência” cria um cenário de travamento: a indústria não quer remunerar mais porque tem estoque, e o vendedor não quer entregar barato esperando a valorização futura.
